Orgasmo poético
Este blog é uma continuidade do blog Poiesis Rosidelma Fraga rosidelmapoeta.blogspot.com (2014). Algumas publicações serão postadas nesta página. Os livros Poiesis em verso e prosa e Cantares de amor podem ser encontrados no site da livraria cultura e Amazon. A obra AmorAmante e O mundo fantástico da menina Angelmam podem ser adquiridos com a autora. AFRICANUA pode ser baixado em https://www.pimentacultural.com/wp-content/uploads/2024/12/eBook_africanua-poemas.pdf
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
terça-feira, 5 de agosto de 2025
Amazônia em coro, cores e coral
Venho despir minha pele molhada de rios
Visto-me de botos e corais da Amazônia
Não confundo Roraima com Rondônia
Sou do Lavrado e danço minhas raízes.
Erotizo minhas cores de folhas e matizes
Para amar o coro das águas e mil vidas
Ora sou onça pintada que geme na mata
Ora sou fêmea-motriz que gera pássaros.
Já dizia Quintana que eu passarinho
Teço meus ninhos, liberto ribeirinhos
Vivo de vitória-régia e desvendo mistérios
Sou Coral da Amazônia em sol, fá mi, ré.
Portanto, fui índia Guarani, sou daqui, já sou Macuxi
Canto nos buritis, nos caimbés que me beijam até meus pés
Desfilo nas savanas com feitiços da lenda canaimé
Sou imortal, sou do beiral, sou voz amazônica, sou coral.
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
BEJAMIM
Era fim de fevereiro, descanso da festa de Carnaval em Mindelo. Meu corpo viajou muito até a ilha e já estava entranhado de poesia entoando versos naufragados de angústia, fúria, medo e solidão.
Eu, Maria Esperança das Dores, já não sentia mais a falta do doutor Flores, como era conhecido o homem que me sangrou o ventre no dia que dei à luz ao rebento, nascido em 26 de fevereiro de 1.994.
Minha memória guarda a gratidão das ilhas de Barlavento quando Flores caiu no Mar para nunca mais voltar depois do estupro marital naquele Carnaval.
Eu saí do mar com uma ardência de gratidão negra que parecia beijar Cabo Verde, o país de Corsino Fortes e seus encantos. Restava-me nas mãos apenas o filho de minhas entranhas que decidi batizar de Benjamim, o filho da felicidade.
Sim. Era a nova felicidade de habitar meus dias de sepultamento de Flores, aquele homem que me tomava à força todos os dias até mesmo no momento em que Benjamim deu o primeiro sinal que viria ao mundo.
Agora, tenho nessas ilhas africanas a esperança e a felicidade. Eu me tornei a Maria Esperança que nunca tinha sido desde o dia em que minha mãe partiu e me deixou com meu próprio pai.
Eu deixarei o relato da mulher insubmissa que fez sangrar as vísceras daquele homem que o mar levou. Eu serei a Esperança para Benjamim que nunca mais olhará a tristeza do ventre de sua mãe nas ilhas de Santo Antão e São Vicente.
Benjamim cresceu sem saber de sua identidade paterna. Viajei anos a fio pelas ilhas, mudei a alma de lugar, passei a ler histórias encantadas no Baobá para ele adormecer os traumas invisíveis. Cada mãe derrama em seu ventre as histórias de sangramento, de submissão, de medo, de choros, mas eu me tornei a Esperança que trazia o cheiro do mar, a força do vento esculpindo o riso largo da mulher africana que cobria a nudez dos ombros com suas Capulanas. E assim, Benjamim, o filho de meu livramento se tornou a canção do berimbau na roda da capoeira que dei o nome de kontentamentu, em crioulo de Guiné-Bissau.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025
SY AYSÚ
Índia, exótica ou pretinha, hahaha! Eu não sou!
Já cantaram as aves da Graúna e Kambeba.
Escute bem, meu senhor:
Não me chame de “sua nega”
Não me tome de caboquinha
Não sou sua “cor do pecado”
Muito menos sua mulatinha!
Não me venhas com dengos, seu racista!
Não insista! Sou anti-colonizador!
Grave bem, meu senhor:
Não sou seu corpo-território!
Meu corpo é life afro-livre
Meu corpo é sem suspensórios.
E assim, eu canto porque re-existo:
Eu vim de lá, eu vim de lá...
Eu vim de lá, eu vim dançando parixara...
Sou a cunhã do aroma de patchouly!
Eu vim de lá, eu vim de lá...
Eu vim dali, sou patuá, eu sou daqui! ![]()
E tem mais, seu karaiva:
Eu sou a Sy guerreira que abriu as pernas,
gozou poesia e gerou Makunaima!
E assim nasceu este filho trans-amor:
Sou kunhã poranga, sou guarani...
Muito prazer! Eu sou Aysú macuxi!
(Poema inédito produzido exclusivamente para a Mostra Picuá, inspirado na força dos professores indígenas do Parfor Equidade, onde fui Professora Formadora)
....
Glossário explicativo do poema
Aysú: amor, em tupi-guarani; e no poema significa “Amor” sem especificidade de masculino para contrapor com a palavra poética trans-amor para todos os povos originários, sem preconceitos de raça, gênero e etnia.
Karaiva: A origem da palavra "caraíva" é indígena, da língua tupi-guarani. Ela é formada pela junção dos termos "kara'i" (que significa "senhor" ou "chefe") e "yba" (que significa "terra" ou "lugar"). Portanto, "caraíva" pode ser traduzida como "terra do chefe" ou "lugar do senhor". No poema a expressão foi utilizada como senhor branco, invasor do corpo-feminino-indígena.
Kunhã poranga: no poema, preferiu-se a grafia em tupi-guarani.
Parixara: dança, mas no poema a expressão é utilizada como um canto em lá menor.
Patchouly: aroma ogostemon patchouly, designada patchuli de Java, usado na indonésia e na música Roraimeira de Zeca Preto, sentindo intertextual utilizado no poema para a mostra Patuá.
Sy ou Ci, ou Maya: Mãe, tupi antigo, em tupi-guarani e Ci, em línguas indígenas existentes como Wapichana.
Sy Aysú: No poema, o significado é mãe-amor, aquela que pariu o Brasil e não aceita mais ser corpo-território de invasores de terras indígenas.
domingo, 28 de janeiro de 2024
MARIAS
MARIAS
As Marias que acordam comigo
Tecem fios e costuram indrisos...
As Carolinas que me habitam
Catam entulhos de fome e solidão...
As Dalilas que me fecudam
Enfeitam as tranças de Sansão....
As dançarinas que me desnudam
Tiram os lenços nos cabarés...
As Capitus que me oblicam
Ciganam os corpos de sedução...
As Liliths que me enfeitiçam
Embriagam os Cristos nas paixões...
Já as Mulheres que me povoam
Vestem-se de Anas e Bacantes,
Safo, Anactoria e Penélopes,
Indígenas, Quilombolas e Africanas,
Ribeirinhas, Portuguesas e Amazonenses
e outras mil mulheres banto
para desfiar risos e resistências.
(Rosidelma Fraga)
domingo, 9 de abril de 2023
PENETRAÇÃO DO ADEUS
PENETRAÇÃO
DO ADEUS
Visto-me de palavras sem ter a senha
para desbloquear frívolos sentimentos.
Um bom poema precisa de composição
para ser apenas inaudível e intransigente.
Um poema precisa adentrar
O sêmem da palavra desafeto
porque o afeto já não se poema.
Afeto não se compra para rimas.
Um bom poema nasce de ausência,
de renúncias, desamor e despedidas.
Eu, a poetinha da razão, dos pretos,
do beco, da mulher negra, das minorias
e da grandeza das prostitutas e dos órfãos,
deixo somente a rima da palavra nudez
porque se queres amar, ame com o corpo,
a alma - já disse Bandeira - estraga o amor.
Ora, o amor já não bebe os pudores falsos,
nem mesmo despe o gozo dos santuários.
Amar é a eterna volúpia do beijo africano
Amar é a penetração silenciosa da palavra adeus.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023
Antes que o sol adormeça
Venha ver meu sol
com lábios de fome
Metade homem
Metade menino.
Vem bailar comigo
Enlaçar meu corpo
Me vestir teus fetiches.
Vem beijar com vinho-tinto
Se fazer de esquecido
Até o amor perder o juízo.
quinta-feira, 29 de setembro de 2022
MANIFESTO DE POESIA
Fica decretado na Lei 13 mil do Universo, os artigos, a saber:
Art 1. O amor de Deus acolherá pretos, pardos, indígenas, órfãos e Madalenas.
Art. 2. Não haverá poema que fale de ódio, misoginia, homofobia, gordofobia, transfobia, etc, etc, etc...
Art. 3. Não haverá céu diferente para pessoas diferentes porque lá não haverá governo nefasto.
Art. 4. Não haverá separação entre periferia e centro. Todos fartarão do mesmo milagre do pão.
Art.5 . Fica decretado ainda que as pessoas especiais e as crianças ensinarão aos homens que o amor virará poesia e não se amará pela distinção de raça, etnia , cor, gênero ou religião.
Art. 6. Para fins de direto, será extinto do universo todo aquele que não jurar amor, amor e AMOR.
(Rosidelma FRAGA).
sábado, 21 de maio de 2022
PARTILHA
Não se partilha afeto em retalhos
porque meros afetos são detalhes,
pontas falhas, linhas tortas e torpes.
O amor é uma cena de gozos
sorrisos, toques e delírios a rasgar
o corpo molhado e suado da poesia.
O corpo intenso de Madalena
já não pode ser o amor sagrado.
Sagrado é o que fica depois
que Madalena rasga seu véu,
deixa a camisola vermelha
nos prostíbulos da poesia.
Afinal, Madalena caminha adiante
porque suas noites são de ausências...
E Madalena, vestida do perdão de si,
escreve suas histórias apenas de corpo...
Com o corpo se faz versos,
apaga-se rimas, mede-se ritmos.
Mas o amor é o que ela levou
para além de uma efemeridade.
(Rosidelma FRAGA).
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
CATIVOS
Entre mimos
molhados
e babados,
tu vens, retinto
adoçar rimas.
Em noites afros
tu vens tocar-me
feito menina.
Entre rimas
e mimos
saio para afagar
o teu corpo-poema.
Vestida de algemas
solto tuas correntes
para sermos cativos
um no outro e do outro
em gritos sem dor.
(Rosidelma Fraga).
terça-feira, 8 de fevereiro de 2022
ORFEU NEGRO
Meu Orfeu tece em mim
os sabores da
eternidade.
Meu Orfeu veste em mim
o tecido de seu corpo
suado
e em meu corpo faz
morada.
Meu Orfeu é o retrato
do corpo que samba,
da canção que sangra,
de Lilith que dança,
de Madalena que ama
e do gozo em chamas.
Meu Orfeu vibra todo
afro
e nosso gozo se faz
cascatas.
Meu Orfeu degusta em
mim
o gozo de amantes
metáforas
e geme de amor e vozes
caladas.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
POEMA NASCENTE
Um poema não se pede
Um poema não se espera.
Como arte do além,
o poema é uma nascente,
brota e jorra versos!
Um poema ergue-se sem razão
Como as cem razões de afeto.
Porque um poema é doação...
É poesia de rima e sertão .
Um poema faz da sina a poesia
Para abraçar o tempo infinito
E louvar-te meu amigo, pelo teu dia!
(Para meu amigo Sérgio Lopes
Por Rosidelma Fraga).
quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
COMO SE FOSSE SOL
Venha ver meu sol
em dia de branco
em noites de encanto.
Tocarei teu cheiro
E desnudarei teu pranto.
Faça-me tranças
em castelos de êxtase.
Dançarei em teu corpo
como se fosse amor
como se fosse flor.
Segure meu corpo
como se fossem cordas
em tom suave de sol.
Guardarei tuas cores
como se amanhã fosse hoje
em som de eternidade.
Por Rosidelma Fraga.

