AFRICANUA E OUTROS POEMAS AFROS

AFRICANUA E OUTROS POEMAS AFROS
Livro digital gratuito publicado pela Editora Pimenta Cultural

domingo, 14 de novembro de 2021

NEGRA, AVANTE!

 

 Negra, eu ouvi teu gemido.

Teu gemido em mim é poesia.

Eu ouvi as chamas de teu pranto

e meu verso do porão virou grito.

 

Por isso invoquei a águia do oceano

para adormecer a fúria dos homens.

 

Em rimas venho dizer-te, negra:

enegreça a fúria do homem branco

com o cintilante de tua negra cor.

Seja como for, seja FLOR

Floresça, negra!

Não se curve, nunca!

Banhe os olhos turvos

do excludente e indiferente.

 

Não pare, negra!

Siga adiante!

Marche!

Não recue! Enalteça-te!

 

E digo mais,

preta cor de amora,

sorria pelo rio afora!

Diga que não és mito

Diga

Repita

Reprise

E grite: AVANTE!

 Avante com seu canto

pois maior que a dor será teu riso

o riso da mulher negra

é o véu do infinito.

EURÍDICE

 


No sangue de minha avó

corre minha história.

Por isso me dispo

Por isso grito

Por isso vibro

Por isso poetizo.

Avó preta

de pés ligeiros,

sacudiu a poeira

bateu barro

socou pilão

e fez meu chão.

Vem, negra flor,

bate esse tambor!

Vem, amora pretinha,

a noite já vai caindo

e tu estás aí, linda

sorrindo feito Rainha!

 

Rodopia, negra!

Cante, encante,

e sambe a vida, Eurídice,

que  áfrica resiste,

a áfrica somos nós,

noite e dia.



domingo, 21 de março de 2021

CURA-ME!

Cura-me!

Cura-me com a ansiedade de teus afagos!

Curo-te com o desmedido beijo de minha calma.

Cura-me ao som de Jesus, alegria dos homens!

E depois de ser várias pétalas nuas em sonhos,

seremos um só corpo, um só poema liberto...

Afinal, o que eu vi em ti?

Vi a minha sede saciada no copo sem fundo

Vi que nas noites insones me tocavas sem rumo 

Vi que teu corpo, teu sangue e teu ar são meus

E teus serão todos meus dias na fonte de amar.

Porque o que eu vi em ti é mais que:

os afagos, mais que a sede de beijo, 

mais que a volúpia, mais que tudo, 

mais que a certeza diante da minha cura.


Rosidelma Fraga.


(P.S.1-Poema pela metade).



domingo, 28 de fevereiro de 2021

EROS E PSIQUÊ

Desdobro o lenço vermelho de metáforas.
Nele, vejo-te em sonhos de Eros e Psiquê...

Eros é a chama sensual que me despe
é  a nota afinada para todas as balladas.


Porém, a poesia fechou o véu do silêncio
porque já não sou Vênus e nem Afrodite,
nem Beatriz, nem a deusa de Petrarca!


Mas tu, meu Amor, és  redenção de versos!
Tu és o paraíso invisível e nostálgico
és o cântico e o mito de Pasárgada
de onde a deusa Afrodite em mim
vem enfeitar e enfeitiçar os cabelos,
para despir os desejos e saciar o poema!


És muito mais que Eros!
És a chave dos mistérios
para acender os incensos
e derramar o amor supérfluo!


Pois o Amor de Eros já não pode ser  incerto.

O Amor não pode ser a frente sem o verso
O Amor é as duas metades que se beijam
e se afinam em notas da mesma canção.

(Rosidelma Fraga-01/03/2021).

Poema escrito em ocasião de uma aula sobre Amor e erotismo/ dupla chama, lendo Octavio  Paz.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

ALINHAVOS

 Jamais escreverei versos naufragados

de um lirismo mecânico e vestido de solidão.


O poema que ora teço vai despindo alinhavos

e nas costuras das cicatrizes o Amor é nudez.


Minha nudez desabrocha como muitas rosas...

Meu amado caminha entre espinhos há horas!


E no cais de horas que parecem intermináveis,

alinhavo palavras doces de metáforas,

banho a pele de Madalena com unguentos,

e o poema vai abrindo as delicadas pernas.


Ora, não demores, meu amado!

Meu corpo e minha alma de poeta,

já te esperavam de outras noites.


E não te esqueças sequer por um segundo

que em mim tu esquecerás a solidão de mundo.

Em mim tu terás o abrigo do Amor sem medida,

terás todas as mulheres nuas em forma de FLOR.


sábado, 19 de dezembro de 2020

SONATA DE BACH


Fabuloso Poeta,

não escrevo versos secretos

não tenho rimas de sextilhas

nem mesmo dedilho o infinito.

 

Mas de tuas Partículas

desnudo aves de arribação

e busco em tuas rimas a tua canção:

“Este gigante roraimense

Que já é um vencedor

Por se fazer companheiro

Que dessa causa faz frente

Como um novo guerreiro”.

 

E se acaso as minhas mãos

fecharem o botão das palavras

ou se porventura ao piano

eu tocar a Sonata de Bach,

saltarei da Jerusalém da poesia

saudar-te-ei com um Deus Nordestino

E pintarei o cordel sagrado em teu destino.

 

(Rosidelma Fraga, ao poeta Lindomar Bach).

Sarau do Amigo Secreto  - Festa do Poema Secreto, pelo Youtube- 19/12/2020.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

BALLADE AND POETRY


Teus dedos dançavam
às teclas nuas do piano.
A epifania que move poetas
soava as palavras surdas,
inexatas, sem pautas e rimas.

É assim do instante metafísico
que a poesia se despe ao lirismo.

Ballade pour Adeline, eis a canção
dos versos que adornastes em mim.
Rosidelma Fraga.  (Poema escrito na ocasião de um recital em Goiás)

sexta-feira, 17 de julho de 2020

CORPO & VOZ



Teus olhos molhados gemem
pela voz ofegante do poema.

A menina de teus olhos suplica
de joelhos por um corpo de palavras.

Eis que minhas mãos ofegantes
e semelhantes ao desejo de maresia
teceram a colcha para tua nudez.

“O céu rasgou seu manto em duas partes”.
Despimos o cheiro da metáfora do amor
Que ainda é fogo que arde sem se vê.

A poesia perdeu a voz em teu grito
E o poema abriu o botão de meu vestido.

Nenhuma palavra quis sair da alcova
No instante que teu olhar deixou cair
O roupão desnudo de tuas súplicas.

Naquele instante ímpar e metafísico
a poesia que já andava nua comigo
abriu a peça incomensurável de teu corpo.

(Rosidelma Fraga, 2014).

segunda-feira, 4 de maio de 2020

CANÇÃO DE AMAR


A maior razão do amor
é  inexistir a razão de amar...

Amar a falta do ato infinito no
efêmero e na incompletude...
Amar a busca do silêncio
na resoluta lacuna da ausência.

É assim que ouço-te sem alarde!
É assim, sem explicações e
reticências que o amor vem!

Tal como a poesia de asas abertas,
meu verso respira sôfrego e  pelo desconhecido...
É assim, anjo negro, que meu
poema convida-te às algemas...

Venha ver o pôr-do-sol
de nossas luas gêmeas,
até que o canto desabroche
e faça-nos a luz da criação.

ROSIDELMA FRAGA

domingo, 22 de março de 2020

AMOR REGADO




Se acaso o tempo cortar as rosas
e meu poema não mais molhar
a ausência de teus olhos,
ainda assim cantar-te-ei o amor.

Se acaso não regares o jardim
ainda adubarei o chão
da tua presença que ficou
e dela brotarei o amor guardado...

porque o amor se guarda
nas horas perdidas
no relógio parado
no minuto eterno
do tempo que voa.

Se acaso, o amor regado
derramar teu sangue em meu corpo
brotarei  flores sepulcrais...
E velarei tua morte depois do amor...
Porque o amor que se guarda
renasce da eternidade do silêncio.

(Rosidelma Fraga).

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

TAMBOR



Na boca do 
Barlavento 
meu poema 
geme sedento.

No tAMbOR 
de teu silêncio
tua ilha rasga
o rosto da terra.

Africando em mim
tuas negras algemas
vestem-me de insensos...

Porque na ilha do amor
o teu Deus, que é cupido meu e teu, sairá do mar...

E meu verso livre
todo negro, 
todo cabo-verdiano,
beberá o teu corpo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

VOZES E SILÊNCIO


 (Para Samuel Fernandes Brito)

Ilhado da poesia do corpo
entoastes meus versos...
Versos naufragados
de silêncio e arte
que deságuam
na gratidão que me toma.

Tua voz negra parece beijar
a ardência da alma enciumada
deste país de amor e encantos.
Cabo Verde, de onde
ouço os sinos de Corsino
nas fontes de meu silêncio,
de tua ausência, de teus ventos.

De olhos vendados de poesia,
meu sangue bebe a sonata
que vem de tua alma amada.
Amados serão todos os poetas
negros que colorem nosso sangue.
Amores serão todos os amantes,
por mares  africanos navegados,
por ilhas sonhadas, por vozes caladas...

E na maresia de meus sonhos rabiscados
Eu, poeta do amor, codinome de flor,
gracejo em desenhar a arte de tua cor,
cor de amora, aroma dourada, cor do amor,
na canção de tua voz tatuada em mim.

(Rosidelma Fraga - escrito hoje, em agradecimento
à leitura linda de minha poesia).

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

POEMA LIVRE



Escrevo versos livres
como Walt Whitman...
Pinto rimas de liberdade
 como quem beija o vento...
Espero a canção de amar
como verbo  intransitivo,
incompleto,
complexo,
convexo,
côncavo de eternidade.
E que o amor possa
caminhar  liberto
como aquele cão de rua
a esperar o cheiro
de uma fêmea ladrando
vidas...
Porque poesia é a voz
de fazer nascimentos.

(Rosidelma Fraga).