AFRICANUA E OUTROS POEMAS AFROS

AFRICANUA E OUTROS POEMAS AFROS
Livro digital gratuito publicado pela Editora Pimenta Cultural

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

TAMBOR



Na boca do 
Barlavento 
meu poema 
geme sedento.

No tAMbOR 
de teu silêncio
tua ilha rasga
o rosto da terra.

Africando em mim
tuas negras algemas
vestem-me de insensos...

Porque na ilha do amor
o teu Deus, que é cupido meu e teu, sairá do mar...

E meu verso livre
todo negro, 
todo cabo-verdiano,
beberá o teu corpo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

VOZES E SILÊNCIO


 (Para Samuel Fernandes Brito)

Ilhado da poesia do corpo
entoastes meus versos...
Versos naufragados
de silêncio e arte
que deságuam
na gratidão que me toma.

Tua voz negra parece beijar
a ardência da alma enciumada
deste país de amor e encantos.
Cabo Verde, de onde
ouço os sinos de Corsino
nas fontes de meu silêncio,
de tua ausência, de teus ventos.

De olhos vendados de poesia,
meu sangue bebe a sonata
que vem de tua alma amada.
Amados serão todos os poetas
negros que colorem nosso sangue.
Amores serão todos os amantes,
por mares  africanos navegados,
por ilhas sonhadas, por vozes caladas...

E na maresia de meus sonhos rabiscados
Eu, poeta do amor, codinome de flor,
gracejo em desenhar a arte de tua cor,
cor de amora, aroma dourada, cor do amor,
na canção de tua voz tatuada em mim.

(Rosidelma Fraga - escrito hoje, em agradecimento
à leitura linda de minha poesia).

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

POEMA LIVRE



Escrevo versos livres
como Walt Whitman...
Pinto rimas de liberdade
 como quem beija o vento...
Espero a canção de amar
como verbo  intransitivo,
incompleto,
complexo,
convexo,
côncavo de eternidade.
E que o amor possa
caminhar  liberto
como aquele cão de rua
a esperar o cheiro
de uma fêmea ladrando
vidas...
Porque poesia é a voz
de fazer nascimentos.

(Rosidelma Fraga).

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Galáxia do corpo


Em teu leito desnudarei
de saudades verdes
e beberei tua pele
e teu cheiro como néctar.


Guardarei teu silêncio
arranharei o barro negro
que vestiu teus gemidos
e abraçar-te-ei com furor
e dar-lhe-ei flores, amor...


E noutro porto das galáxias
meu sangue cobrirá teu corpo,
rasgar-me-ei em teus pedaços
e nossas almas terão sentido.

SONETO SEM FIM


Meu guia que sente os aromas da alma
E sabe a fragrância dos orixás celestes...
Teu corpo me despe  e teu ser me deságua...
Tem cheiro de negro o teu Amor agreste.

Vestir-me em tua pele, tocar  o teu cheiro
É chamado de atabaque de tuas mãos sedentas
Inspirar os teus versos, dormir no teu peito,
Convida-me a poesia. Excita-me a ausência .

As rosas nuas que tocam o teu beijo em mim
As chamas espalham o Amor noite e dia,
As fontes de memória que conhecemos.

São histórias que perduram no Amor que temos...
De estar um no outro como poema infinito,
Do orgasmo sem fim em suspiro de poesia.

DE AMAR


Não sou poeta
que dá de amar
por equações.

Meu poema
é sem razões
de amar.

Dá-me assim
de amar mais
que amiúde.

Far-te-ei anjo
encarnado
de poesia.

Dá-me de amar
como amante
infinito, terno,
e indelével.

E amar-te-ei
além de Inês
após a morte.

EU POR MIM MESMA


Achou que eu era rio?
Sou mar nunca dantes navegado.
Se me deres um remo navego poemas e oceanos.
Não bebo versos de lágrimas.
Faço delas a rima de poesia inventada.
(Rosidelma Fraga).

POEMA NU


Rabisco agora um poema que vem nu.
Teço o verso que veste minha nudez de saudade...
Reescrevo a cena morena de teu beijo...
E a poesia sinestésica abre a pele de teu cheiro.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

DESEJOS


Apareço de costas em meu verso
como quem tira o roupão atrás da porta.

Excito a voz rouca do poema
fecho o botão da camisa
e saio desnuda frente ao espelho.

Rasgo o véu da palavra incerteza
E certamente banho na fonte
das metáforas de ser e de amar.

Toda nua, toda rouca, toda cheirosa
a poesia sai de mim pé por pé
e se entrega na cama do desejo lírico.

Depois de ser amassada e sugada
a poesia sai de madrugada
e lê um convite caído ao chão:

VAI TER UM BAILE NO CÉU
ONDE DEUS TODO NU VIRARÁ CANÇÃO
A poesia entrará de pernas abertas
pela porta da frente e com seios fartos.
Eis que os anjos calar-se-ão.
E eu chego descalça
Viro Afrodite com saia de Eros
E sambarei por toda a minha vida.

(Rosidelma Fraga, da obra "Cantares de Amor", 2014).

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

POEMOLHADO



Tentei segurar o ritmo das horas
que o tempo excitado não perdoa
para compor um verso cor de amora.

Não sei se era imaginação de poeta,
ou encarnação de caboclo roxo no rio.
Vi a poesia se despindo de teus olhos
E quis rasgar a pele de preto no cio.

Guardei o instante da eternidade...
porque eterna é a celebração
de teu sangue desvelado,
de teu beijo  poemolhado,
de minhas mãos tímidas,
apáticas, inexatas,
surdas e  suadas.

Já não pude esconder a poesia
embaixo do tapete do carro
e tirar a calcinha das rimas
no quarto das bacantes de um motel.
Trouxe da rua a covardia de ser poeta.

Escondi o ciúme de rasgar a tua cor
e ser a menina nua que te dança e namora.
O amor já não pode seguir o relógio
porque o tempo é efêmero e traiçoeiro.

Tenho em mim o triunfo de filtrar sonhos...
Guardarei o instante e serei Penélope nua
a costurar a colcha de cetim vermelho
a segurar  um minuto parado da poesia.

Certamente desnudarei o efêmero da rua morta,
a velocidade dos carros, o riso do caboclo,
o receio da mulher em chamas, tua boca de amora,
e dois negros cabelos virando poema que voa.

Em instante metafísico meu sangue
quisera ser Afrodite e Jacira
para misturar tua pele de índio
ao meu destino de cigana vagabunda.
No entanto, pressinto que a poesia casta
ainda que  em hora marcada e estática
deixará cair o  manto vermelho
do amor dos deuses a molhar teu sêmen.


Teu sangue guerreiro ainda fechará o tempo
e meu poema regressará ao lirismo de teu corpo.
Conhecerás que o amor singular e cravado
permanece além dos sexos e da nudez dos índios,
é muito mais que o teu corpo sagrado em mim.

(Rosidelma Fraga).